segunda-feira, agosto 08, 2011

Domingo foi um dia atípico.
Não por muito, mas as pequenezas, os detalhes fizeram deste domingo, um sete de agosto comum, um tanto estranho.

Não aconteceu muita coisa. Saí para o supermercado, voltei para casa. Fui a um chá de bebê, passei na casa da minha avó, voltei para casa. E nesse voltar para casa, vi um conjunto de viaturas fechando uma rua, no quarteirão de casa. Batida policial? Lei Seca? Afinal, o que está acontecendo?

O sinal passa de amarela para vermelho e me detenho por alguns momentos na esquina da confusão. O suficiente para ver um corpo caído no chão, coberto dos pés à cabeça. Que coisa estranha essa mania do homem, de esconder a morte. Criar um manto, uma divisão entre o mundo dos vivos e o mundo do descanso eterno. Ah, é uma forma de manter a dignidade do morto. Como se o defunto precisasse de dignidade. Depois de mortos, queridos, não precisamos mais de nada, nem das vindouras lágrimas.

O sinal vai do vermelho para o verde. Sigo mais um quarteirão e paro em frente ao portão da garagem. Para a maioria das pessoas nos seus carros, às nove da noite, a cena era apenas uma mudança na paisagem cotidiana. Vida que segue e pensamentos ao alto, afinal, se correrem ainda pegam o final do Fantástico.

Eu entrei em casa e precisei sair de novo, dessa vez a pé, até a farmácia. Um quarteirão de casa, o mesmo quarteirão onde o corpo estava. Fui caminhando normalmente, entrei na farmácia, boa noite, boa noite, remédio tal, pagar em débito, digite a senha por favor...
Sabe como foi que aconteceu?
Não, só sei que era um entregador de pizza.
Foi o 409(uma linha de ônibus). Pegou ele e arrastou a moto mais de cem metros. Ele ficou lá, no chão.
(de onde nunca mais se levantaria)
Percebi que a coisa estava feia quando vi aquela poça de sangue grosso no chão, sabe?
Era muito grande.

Populares sempre são atraídos por esses acontecimentos. Sou popular. Quero saber, entender, tentar racionalizar o fim de uma vida. Não existe racionalização.
Não existem formas de entender.

Tento seguir o dia do entregador de pizza. Refazer os caminhos dele. Para qual time ele torce? Estaria feliz com a vitória ou triste com a derrota do final de semana? Quantos anos ele teria? Qual a pessoa que ligou pedindo a pizza, e a vida do entregador? Qual a pizza que essa pessoa pediu? Com ou sem cebola? Será que ela estaria ligando, reclamando da demora de entrega enquanto ouve: "aconteceu um acidente"? Afinal o que eu tenho com um acidente? Eu pedi uma pizza e ela não chegou.

O motoqueiro não chegará em casa hoje. Nem amanhã.

Tento fazer o trajeto. Pega a pizza, poucos minutos de vida restando. Liga a moto, contagem regressiva chegando ao fim. Sai pelas ruas, cortando carros ou dirigindo calmamente? Atravessa um sinal vermelho? Faz uma curva mais aberta? Viu o ônibus?
Como teria sido o impacto, a pancada? Morte na hora ou ainda teve tempo de sentir frio, o asfalto sem vida, quase como ele em poucos segundos (ou minutos). Quando teria dado seu último suspiro?

Na volta para casa, nesse um quarteirão que separa a vida da morte, fui pensando. Voltava de um chá de bebê, o clima era de nascimento, comemorando uma nova vida, ainda incipiente, enorme dentro da barriga da futura mamãe. Crianças e bebês corriam pelo playground, celebrando a vida que parece ser eterna. Me lembro de ter lido em algum lugar que a infância acaba quando nos damos conta de que um dia iremos morrer. Nenhuma inocência se sustenta frente à noção de finitude. Não sei quando foi que me dei conta de que tudo um dia irá acabar. Sei que o pensamento me assombra há muito. Noites vazias, de desespero infantil.

Nunca se sabe onde ou quando vamos chegar ao fim da linha. E isso sempre me deixou com uma sensação de vazio, de falta de propósito ou sentido para continuar. É claro, é simples. Um dia, mais cedo do que pensávamos ou mais tarde do que primeiro imaginamos, ele chega. Em uma batida de carro, numa doença terminal, num escorregão no banheiro, numa bala perdida, numa explosão vascular... E uma vez encontrado(o fim da linha), não há nada que possamos fazer para dar meia volta e continuar o caminho na direção contrária.

4 comentários:

Paul MacLeod disse...

O sonho é popular.
e a morte nem sempre pede carona, às vezes ela vem de coletivo.

Gil Pender - Livre como um táxi disse...

Pizza sabor asfalto com sangue.

Quem vai saber o que morreu com ele?

Taylor disse...

ninguém. E nem matou a fome de ninguém também. Só a fome de sangue dos motores empapados em óleo.

TCo disse...

Me dei conta de que não me lembro da última vez de ter visto a morte assim tão de perto.

A gente se esquece dela varias vezes por dia. Um fino que você tira de um caminhão. Um neném se jogando do sofá de cabeça. Um surfista se equilibrando numa prancha em cima do coral.

Ela está lá... independente da beleza da cena.