Ih caramba...
Farei aniversário daqui a pouco. Poucos dias, uns 15 dias, e lá vou eu rumo aos 41 anos. caraca, 41!
Enfim, foda-se. Mantenha o corpo em dia e o espírito jovem que nada poderá te derrubar (ou simplesmente pense na frase ao lado como consequência da cafeína e de seu poder indutor de azia e bons pensamentos).
Busquei um novo emprego desde que soube que iria mudar de posição dentro da empresa onde trabalho e não ganharia a mais por isso. Muito mais trabalho, um trabalho mais intelectual e o salário, ó...
Aqui na Zooropa é difícil pacas arrumar um emprego, ainda mais estando longe de tudo - as entrevistas são por Skype e poucas empresas podem se dar ao luxo de esperar o aviso-prévio (no meu caso, eram 3 meses) e ainda pagar sua mudança - ou apenas ajudar, já que mudança aqui é caro pra caralho)!
Mas rolou! Teve uma empresa maluca o suficiente para me contratar (isso, em si, não é maluquice, sou um ótimo profissional e eles ficarão mais do que felizes com a minha adição na empresa - vinhemos qui para somar ao time). E lá vamos nós, para o terceiro país em menos de 3 anitos de europa. Desta vez, vou para a República Tcheca. Sim, parece louco. E é. Não falo tcheco, nem perto disso, mas estou tentando aprender com um aplicativo no celular e vídeo-aulas no youtube (insira aqui sua risada).
Dia 23 de maio estaremos embarcando nessa aventura, mais uma. E vou provavelmente escrever sobre ela aqui...
No entanto, não foi esse o motivo pelo qual resolvi escrever. Sim, foi. Mas também não foi.
41 anos, começando numa empresa nova, numa cidade nova. Sem raízes. Sem lugar para ficar (sem ap alugado ainda). Sem saber como será lá no novo emprego. Sem conhecer as ferramentas que eles usam. Sem conhecer as necessidades do lugar (e a língua!).
E, pela primeira vez, me deu um certo cansaço de ter que sair de um lugar onde tenho praticamente conhecimento total do que faço e de todas as etapas do processo profissional (passei por quase todas as áreas do marketing de lá) e começar tudo de novo.
Junta isso a um certo cansaço de fazer mudança. E uma certa vontade de sossegar, comprar uma casa e ter uma vida mais local/enraizada.
Ah o ser humano, este eterno insatisfeito... Verdade seja dita, a Espanha seria/será(?) um dos meus lugares favoritos para morar para sempre. Não aqui, nessa cidadezeca (tadinha dela), ou até nela. Mas a situação é bem complicada com esse lance de Brexit e tudo mais, e é melhor estar longe do UK até que esta merda se desenlace totalmente. Deixo meu emprego no UK de lado, deixo a tão querida Inglaterra de lado e vou-me para o coração da Europa.
De lá, mando notícias. como diria o pica-pau, não se esqueça de escrever!!!!
Música, cinema, literatura pobre, propaganda e um pouquinho de vida. Melancolia também, por que não?
domingo, abril 30, 2017
domingo, março 19, 2017
Fará, em poucos dias, dois anos e meio que nos mudamos para a Europa.
EUROPA, UAU!!!
Sim, é como pensamos, independente de já ter visitado várias vezes ou mesmo conhecido gente que veio e mora aqui, como se fosse um canto qualquer do Brasil. Não há santo que evite um certo desbunde ao chegar em terras europeias. As coisas "funcionam", as cidades são "limpas" e há segurança. Percebam que só a segurança eu não coloquei entre aspas. A verdade é que a realidade aqui é bem diferente do que a pintada por posts e atualizações em facebook.
Eu cheguei em Londres. Cara, você não tem noção do que é Londres: uma meca do consumo, a NY do lado de cá, onde as pessoas compram e se exibem (os trilionários árabes, principalmente). Você precisa estar neste ciclo do consumo para fazer parte da cidade e, veja só, é tudo muito caro. O transporte, a cerveja no pub, os shows... Mas é isso, você tem acesso a tudo o que sempre quis, quando jovem. Todos os discos, todos os shows, todas as cervejas, as marcas de cosméticos as marcas de roupa... Tudo ao seu alcance e, acredite, você vai querer aproveitar. E vai, irresponsavelmente, torrar uma grana federal nessas pormenoridades. E então, a realidade bate na sua cara. O preço do aluguel, o preço das coisas, a conversão cachorra do real x libra... Só sobra mesmo ter que trabalhar para se manter e é aí que a realidade não só bate na cara, mas te atropela como um caminhão de mil toneladas.
Não é só você que acha Londres maravilhoso, que adoraria viver na Europa e tal...
É o mundo inteiro. E aqui, sua carreira é tão inútil, sua experiência é tão frugal que não faz nem cócegas na concorrência.
Ir para a rua atrás de trabalho é ir contra a corrente. Aceitar o que te pagam, aonde te aceitam. Muitas vezes encarando a famosa zero-hora, um contrato cachorraço de trabalho que só te chamam quando tem coisa para fazer e você só recebe pelas horas que trabalhar. Sem segurança de que vai trabalhar todos os dias do mês ou da semana. E sem o tempo necessário para correr atrás de algo melhor. Sobreviver vira sua meta, seu karma. Ter dinheiro para o próximo aluguel, para a próxima ida ao mercado. Shows, cds, cervejas em pubs? acontecem em menor quantidade, ou param mesmo de acontecer.
É aí que tudo volta a ser como era. Por acaso, consegui um emprego (não em Londres, mas em Gibraltar - olhe no mapa). Trabalho o bastante para sustentar a mim e a Ju. E só. Como tudo, melhorar leva tempo, entender a empresa, subir degraus, leva tempo. Dois anos e meio que cheguei na Europa. A manteiga President agora é só manteiga (e nem é mais a president que é cara - hahahah). A cerveja é em casa, vendo Netflix. Passo frio e passo calor. Espero a semana chegar para ir trabalhar e o fim de semana chegar para descansar e, de preferência, não gastar muito.
Tenho uma vida normal, sem luxos, sem viagens incríveis (por enquanto - hahahah), com Netflix, tomate andaluz e nossas pequenas rotinas.
É assim que tem que ser, não é mesmo?
E falando outra língua, sem os amigos por perto e longe da família que amamos. Vale a pena? E, se vale, até quando?
Volta ao Brasil é um outro assunto que vou falar em outro post, quando tiver mais tempo. Mas não é agora, nem vejo isso acontecendo em pouco tempo. A ver, como dizem os espanhóis.
EUROPA, UAU!!!
Sim, é como pensamos, independente de já ter visitado várias vezes ou mesmo conhecido gente que veio e mora aqui, como se fosse um canto qualquer do Brasil. Não há santo que evite um certo desbunde ao chegar em terras europeias. As coisas "funcionam", as cidades são "limpas" e há segurança. Percebam que só a segurança eu não coloquei entre aspas. A verdade é que a realidade aqui é bem diferente do que a pintada por posts e atualizações em facebook.
Eu cheguei em Londres. Cara, você não tem noção do que é Londres: uma meca do consumo, a NY do lado de cá, onde as pessoas compram e se exibem (os trilionários árabes, principalmente). Você precisa estar neste ciclo do consumo para fazer parte da cidade e, veja só, é tudo muito caro. O transporte, a cerveja no pub, os shows... Mas é isso, você tem acesso a tudo o que sempre quis, quando jovem. Todos os discos, todos os shows, todas as cervejas, as marcas de cosméticos as marcas de roupa... Tudo ao seu alcance e, acredite, você vai querer aproveitar. E vai, irresponsavelmente, torrar uma grana federal nessas pormenoridades. E então, a realidade bate na sua cara. O preço do aluguel, o preço das coisas, a conversão cachorra do real x libra... Só sobra mesmo ter que trabalhar para se manter e é aí que a realidade não só bate na cara, mas te atropela como um caminhão de mil toneladas.
Não é só você que acha Londres maravilhoso, que adoraria viver na Europa e tal...
É o mundo inteiro. E aqui, sua carreira é tão inútil, sua experiência é tão frugal que não faz nem cócegas na concorrência.
Ir para a rua atrás de trabalho é ir contra a corrente. Aceitar o que te pagam, aonde te aceitam. Muitas vezes encarando a famosa zero-hora, um contrato cachorraço de trabalho que só te chamam quando tem coisa para fazer e você só recebe pelas horas que trabalhar. Sem segurança de que vai trabalhar todos os dias do mês ou da semana. E sem o tempo necessário para correr atrás de algo melhor. Sobreviver vira sua meta, seu karma. Ter dinheiro para o próximo aluguel, para a próxima ida ao mercado. Shows, cds, cervejas em pubs? acontecem em menor quantidade, ou param mesmo de acontecer.
É aí que tudo volta a ser como era. Por acaso, consegui um emprego (não em Londres, mas em Gibraltar - olhe no mapa). Trabalho o bastante para sustentar a mim e a Ju. E só. Como tudo, melhorar leva tempo, entender a empresa, subir degraus, leva tempo. Dois anos e meio que cheguei na Europa. A manteiga President agora é só manteiga (e nem é mais a president que é cara - hahahah). A cerveja é em casa, vendo Netflix. Passo frio e passo calor. Espero a semana chegar para ir trabalhar e o fim de semana chegar para descansar e, de preferência, não gastar muito.
Tenho uma vida normal, sem luxos, sem viagens incríveis (por enquanto - hahahah), com Netflix, tomate andaluz e nossas pequenas rotinas.
É assim que tem que ser, não é mesmo?
E falando outra língua, sem os amigos por perto e longe da família que amamos. Vale a pena? E, se vale, até quando?
Volta ao Brasil é um outro assunto que vou falar em outro post, quando tiver mais tempo. Mas não é agora, nem vejo isso acontecendo em pouco tempo. A ver, como dizem os espanhóis.
sexta-feira, fevereiro 17, 2017
Terra à vista
Cerveja Social Clube - minhas colunas lá
"Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá."
Gonçalves Dias
Escolhi começar este texto com uma pequena parte do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, por um simples motivo: saudades. Ah, palavrinha tão nossa, muitas vezes sem tradução para outras línguas, mas que sabemos, como nenhum outro povo, sentir.
Ok, sei que você espera ler sobre cerveja, não literatura romântica. Mas é impossível escrever sobre cervejas sem lembrar das minhas queridas cervejas do Brasil. Estou curtindo um exílio auto-imposto, aproveitando tudo o que a Europa pode oferecer em termos de cevada e lúpulo, e ainda assim não consigo parar de pensar no que deixei para trás, aí no Brasil.

Sinto falta da rapadura moleque, escondida em um gole da Indica. Do cacau, na Cacau IPA.
Do amargor sem fim da Green Cow. Do Petroleum, que é nosso! AHA UHU! Do café de verdade da Hop Arábica, do maracujá,da carambola, das frutas amazônicas. Do nosso jeito meio imaturo, ainda começando a caminhar, de fazer cerveja. Das nossas invencionices de panela, das nossas caras de surpresa quando encontram um rótulo novo. Sinto, principalmente, saudades de respirar essa cultura cervejeira, de saber onde encontrar pessoas que gostam tanto disso quanto eu. Não há sabor, tradição, cultura ou insumos frescos que façam valer a pena deixar para trás os sabores que aprendemos a amar.

Que a indústria cervejeira nacional seja mais valorizada, de cima para baixo. Que o governo apoie essa nova geradora de empregos, divisas e ressacas. Que o público entenda que muitas vezes é melhor tomar uma IPA recém saída da fábrica do que uma que atravessou o oceano, sofrendo em containers. E que eu possa, por muito tempo, ter cervejas de qualidade para beber e me orgulhar, como fiz hoje, aqui, neste texto.
Tim Tim
"Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá."
Gonçalves Dias
Escolhi começar este texto com uma pequena parte do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, por um simples motivo: saudades. Ah, palavrinha tão nossa, muitas vezes sem tradução para outras línguas, mas que sabemos, como nenhum outro povo, sentir.
Ok, sei que você espera ler sobre cerveja, não literatura romântica. Mas é impossível escrever sobre cervejas sem lembrar das minhas queridas cervejas do Brasil. Estou curtindo um exílio auto-imposto, aproveitando tudo o que a Europa pode oferecer em termos de cevada e lúpulo, e ainda assim não consigo parar de pensar no que deixei para trás, aí no Brasil.

Sinto falta da rapadura moleque, escondida em um gole da Indica. Do cacau, na Cacau IPA.
Do amargor sem fim da Green Cow. Do Petroleum, que é nosso! AHA UHU! Do café de verdade da Hop Arábica, do maracujá,da carambola, das frutas amazônicas. Do nosso jeito meio imaturo, ainda começando a caminhar, de fazer cerveja. Das nossas invencionices de panela, das nossas caras de surpresa quando encontram um rótulo novo. Sinto, principalmente, saudades de respirar essa cultura cervejeira, de saber onde encontrar pessoas que gostam tanto disso quanto eu. Não há sabor, tradição, cultura ou insumos frescos que façam valer a pena deixar para trás os sabores que aprendemos a amar.

Que a indústria cervejeira nacional seja mais valorizada, de cima para baixo. Que o governo apoie essa nova geradora de empregos, divisas e ressacas. Que o público entenda que muitas vezes é melhor tomar uma IPA recém saída da fábrica do que uma que atravessou o oceano, sofrendo em containers. E que eu possa, por muito tempo, ter cervejas de qualidade para beber e me orgulhar, como fiz hoje, aqui, neste texto.
Tim Tim
Três lúpulos
Cerveja Social Clube - minhas colunas lá
Tags:cerveja, duvel, hops, lúpulo, tripel
Categories: Mesa de bar
Para mim foi uma surpresa quando recebi o convite para escrever s obre cervejas. Sou, na melhor concepção da palavra, cervejeiro. Gosto de beber e, com o tempo, fui experimentando tantos sabores e estilos diferentes que já me considero um conhecedor das loiras geladas. Mas não vou muito longe. Não sou especialista em lúpulos ou maltes, sou uma pessoa comum, que gosta do que bebe e tenta beber sempre o melhor. Em tempos de sommelier de cervejas, degustadores profissionais e professores de cervejo-conhecimento, é bom poder ver que ainda existe espaço para um companheiro de copo escrever sobre sua bebida preferida.
Como falei ali em cima, tento sempre provar o que de melhor há nas lojas e gôndolas. E foi numa dessas experiências que provei a edição especial da Duvel Tripel Hop. Se o nome já traz certa familiaridade é porque Duvel é uma das nossas mais queridas belgas, muitas vezes porta de entrada para outros estilos de cerveja. Nessas edições, a Moortgat resolveu aumentar a lupulagem e dar uma cara diferente a um de seus principais produtos.
Como grande diferencial, a edição anual recebe três tipos diferentes de lúpulo: Saaz e Golding, como base e um terceiro, variável de acordo com o ano, adicionado também no dry-hopping. No fim das contas, são eles que escancaram a personalidade da cerveja.

Na edição de 2012, a Duvel recebeu o lúpulo Citra. Recordo de abrir a garrafa e já ser recebido com o aroma cítrico (como o próprio nome já diz) que se repetiu no momento em que o coloquei no copo. O primeiro gole me lembrou aquelas limonadas geladas, que matam a sede depois de uma pelada jogada descalça pelas ruas do bairro. Cerveja refrescante e leve, apesar dos 9,5% de graduação. Uma paulada, que desce macio como deve ser. Após essa experiência, resolvi tirar a prova dos 9 e mandei abrir uma edição de 2013,onde quem manda é o lúpulo japonês Sorachi Ace.
Duvel Tripel Hop 2013Todo o frescor da 2012 deu lugar a uma experiência mais oriental. Bem mais contida, no aroma e no sabor, a Duvel Tripel Hop 2013 é elegante e zen como a cultura oriental. Os aromas herbáceos e térreos, como as primeiras gotas de chuva na terra, apareceram, mais uma vez, com muito equilíbrio. Lembre-se, estamos falando de uma cerveja com 9,5%. É um gole complexo, muitas vezes indecifrável. É, podemos aproveitar a ligação com a terra do sol nascente e brincar, apelidando essa cerveja de ninja já que, como esses guerreiros, é difícil de ser identificada.
Depois dessas duas experiências, quem teve que ser ninja fui eu. Primeiro, para encontrar o caminho de casa e depois, pé após pé, para caminhar em silêncio e não atrapalhar o sono da minha gueixa. Até o próximo gole.
hoje, mais especificamente, quero reclamar.
da vida, em geral.
Acordar com sono, despertador tocando. levantar para o frio (e olha que nem frio faz), ainda baqueado. Ir fazer o café, antes tomar o remédio, opa está acabando - preciso marcar médico. Fazer o café, contar as fatias do pão de forma, ver se tenho pão o suficiente até semana que vem, lembrar que devo ao banco. Droga, já me cobraram mais 35 euros de multa.
Tomar o café, lavar a louça, vestir a roupa gelada, colocar casaco, casado, luva, capacete... escovar dente, esqueci. Sem tênis dentro de casa...
Entrar com a bicicleta apertada no elevador. cara a cara com o pneu fétido, a borracha imunda pedindo um beijo de língua, frio na cara, pedalo contra o vento. Nariz escorrendo, vento, frio. Luvas na mão, corrente solta/marcha arrebentada. Roda torta que não tenho dinheiro para consertar. Mulher cansada, os problemas de casa vêm junto na cabeça, as contas atrasadas, as multas, o frio, o vento, a promessa de um dia as coisas vão melhorar, a falta de respostas, preciso ir, preciso ficar, caralho, o carro.
bateram no meu carro parado em uma vaga na rua, caralho. a porta amassada, carralho. carro. caro.
mais uma merda pra chafurdar. trabalho, que saco, dor no ombro, dor no braço. dor na coluna, pernas fracas, sexta-feira, uma lata de milho, outra de atum e o almoço está na mesa.
Dia que não anda, vontade de ir embora, vontade de largar tudo, esquecer, desistir...
bosta.
vida que segue
coloco um música, tento dar uma animada...
redescubro o Sun Kill Moon.
da vida, em geral.
Acordar com sono, despertador tocando. levantar para o frio (e olha que nem frio faz), ainda baqueado. Ir fazer o café, antes tomar o remédio, opa está acabando - preciso marcar médico. Fazer o café, contar as fatias do pão de forma, ver se tenho pão o suficiente até semana que vem, lembrar que devo ao banco. Droga, já me cobraram mais 35 euros de multa.
Tomar o café, lavar a louça, vestir a roupa gelada, colocar casaco, casado, luva, capacete... escovar dente, esqueci. Sem tênis dentro de casa...
Entrar com a bicicleta apertada no elevador. cara a cara com o pneu fétido, a borracha imunda pedindo um beijo de língua, frio na cara, pedalo contra o vento. Nariz escorrendo, vento, frio. Luvas na mão, corrente solta/marcha arrebentada. Roda torta que não tenho dinheiro para consertar. Mulher cansada, os problemas de casa vêm junto na cabeça, as contas atrasadas, as multas, o frio, o vento, a promessa de um dia as coisas vão melhorar, a falta de respostas, preciso ir, preciso ficar, caralho, o carro.
bateram no meu carro parado em uma vaga na rua, caralho. a porta amassada, carralho. carro. caro.
mais uma merda pra chafurdar. trabalho, que saco, dor no ombro, dor no braço. dor na coluna, pernas fracas, sexta-feira, uma lata de milho, outra de atum e o almoço está na mesa.
Dia que não anda, vontade de ir embora, vontade de largar tudo, esquecer, desistir...
bosta.
vida que segue
coloco um música, tento dar uma animada...
redescubro o Sun Kill Moon.
segunda-feira, janeiro 16, 2017
Hoje, estranhamente, não ouvi o despertador.
Não sei se ele tocou, de verdade. Mas estava lá, tudo ajeitadinho, hora correta, ligado...
Enfim, faz muito tempo que isso não acontece.
De qualquer forma, estou numa viés de baixa.
Entupo-me de café para ver se dou uma animada, coisa de cafeína/serotonina, mas tá difícil.
Hoje só estou triste e calado.
Quero fazer o que preciso fazer no trabalho e ir embora.
Não sei se ele tocou, de verdade. Mas estava lá, tudo ajeitadinho, hora correta, ligado...
Enfim, faz muito tempo que isso não acontece.
De qualquer forma, estou numa viés de baixa.
Entupo-me de café para ver se dou uma animada, coisa de cafeína/serotonina, mas tá difícil.
Hoje só estou triste e calado.
Quero fazer o que preciso fazer no trabalho e ir embora.
domingo, janeiro 08, 2017
- Vamos embora? -
Primeiros dias de 2017.
2017, meu Deus.
Parece que foi ontem que passava o perrengue e o medo de ter que encarar o bug do milênio.
E já essa eExpresão mesmo, morta e nterrada, parece ficção de livro de história.
Mas o que quero dividir aqui são as coisas do passadomrecente.
Em 2014, setembro, passgem na mão e muitas incertezas na cabeça, joguei-me em direção à Europa. Digo joguei-me e ressalto sempre esta palavra porque não houve um planejamento longo e especifico para isso. Claro, desde a compra das passagens ate o embarque foram mais de seis meses. Teve o aviso previo, as despedidas, o desmonte do apartamento, a tentativa de junatar algum dinheiro, a compra de libras... tUdo isso num cenario nacional ja pre-crise. As contas batiam na agua e a agua batia na bunda.
Vendi carro, peguei emprestimos e com algum dinheiro da vendas dos moveis do apartamento - era minha casa, ne, nossa casa - da Tijuca, viemos.
Viajo entre as pessoas neste texto pois, apesar deste ser um blog pessoal, e muito dificil dissociar a ida a Juliana, minha esposa em contrato. Mas essa e outra historia que quem sabe, conto outro dia.
Chegamos em setembro, dia 22, em Londres. Fomos para um quarto em um airbnb por uma semana, no oeste de Londres, em Acton. Fomos para lá, pois precisaríamos esperar para que o quarto que nos acolheria por pelo menos os proximos tres meses fosse desocupado. Este quarto, num apartamento de 3 quartos em Chiswick, caiu do céu. Eu, admito, morria de medo de chegsr em Londres sem um lugar para ficar. Não estava indo sozinho, não estava com uma mochila. Levava, acredite, DEZ malas. Algumas apenas com CDs e DVDs. Nao era uma viagem de ferias, era uma mudança. De vida. Ter um lugar, por menor que fosse, por menos tempo que fosse, me deu uma sensação de segurança e tranquilidade nos primeiros dias e semanas. Com tempo, poderia buscar algum trabalho ou mesmo outro lugar para morar, mas a partir de uma base.
Com o tempo atrás de mim, não imagino como seria se tivesse que cOrrer atras de um lugar para ficsr em Londres, assim que cheguei. Provavelmente o stress da situação e, mais importante, o desconhecimento total da realidade da cidade levariam a uma decisao equivocada e apressada. Os 3 meses, neste momento, seriam essenciais. E assim, foi. Fomos, uma semana depois, de Acton para Chiswick High Road. Levamos as malas de metrô, uma estação e uma caminhada de uns 20 minutos entre as casas. Passamos um domingo inteiro, dia 28 de setembro, fazendo isso.
Acabamos já de noite e pedimos um combo da Domino's pizza para comemorarmos com nossos novos roommates - Felipe e Flavia.
Outubro, novembro, dezembro... Os meses passavam voando. Tudo era novidade. Ainda no Brasil já pirava com a chance de ver bandas que nunca pensei ver ao vivo. Tudo, agora, estava aoa meu alcance. Comprei, antes mesmo de chegar em Londres, ingressos para 17shows.
Acredite, DEZESSETE. O primeiro deles, Fu Manchu, 3 dias depois de chegar. Estava aproveitando tudo de bom que Londres podia proporcionar e, enquanto isso, iamos gastando o - pouco - dinheiro que tinha guardado. Mas valeu a pena. Não há arrependimento de minha parte.
- Londres não é mãe, é madastra. -
Desde antes de chegar, meu pensamento sempre foi continuar a trabalhar na área de comunicação. Traduzi meu currículo e atualizei meu linkedin. Rá... Rá...Rá...
Como se fosse fácil assim. No Rio de Janeiro, companheiro, com amigos, família, experiência e minha língua materna, sofri para arrumar um emprego decente, imagina em uma das maiores cidades do mundo, onde concorro com gente de toda Europa (UK ainda era da União Europeia - ainda é, mas até quando?) e, por que não, realmente do mundo todo.
Chegava a mandar uns 50 currículos por dia, às vezes. Não funcionou. Nada funcionava. Nem uma entrevista. Ok, segui mandando currículos. Mas não podia ficar parado, seria fechar o caixão. Esperar o dinheiro acabar para voltar para o Brasil, sem economias, sem emprego, sem casa para chamar de minha...
Como já estava ali pela Inglaterra mesmo, comecei a pesquisar uns mestrados. Mandava uns emails para universidades, levantava preços de cursos, via uma possibilidade nova: estudar e me preparar para um trabalho, com novos conhecidos, novas ofertas e, quem sabe, uma novo ramo de atuação?
Numa dessas buscas online, me deparei com um curso de Marketing Digital. Entendi que era de graça, mandei meus dados, esperei o início, em umas três semanas. Ligam em meu telefone, alguns dias depois e começam uma entrevista longa, com mais de uma hora de duração (e eu sem saber porque). Ao fim, dizem que eles me ligariam falando se eu iria poder fazer o curso ou não. Na minha cabeça pipocaram um monte de interrogações. Mas enfim ligaram e disseram que sim, eu poderia fazer o tal curso e que deveria pagar a primeira parte até o dia X. PAGAR?! Peraí, pensei, não era de graça?
Bom, já tinha feito a entrevista, já tinham me deixado fazer o curso, que descobri, seria totalmente online... Paguei para ver. Não foi barato. Acho que foram quase umas duas mil libras. Seis meses de curso. Comecei e, mesmo muitas vezes, aos trancos e barrancos, terminei o curso. Mal sabia que o curso, sozinho, não abriria nenhuma porta magicamente.
Depois desses 6 meses (novembro - maio), já estava mais do que na hora de fazer algo. Resolvi que iria largar de mão essa de trabalhar somente na minha área e iria buscar qualquer fonte de renda. E saí entregando currículos perto de onde morava. Sempre tinham umas placas de contrata-se pelas lojas de lá.
Uma em especial me chamou atenção: Rock Buyers needed. Algo como Compradores com conhecimento de Rock, para um sebo/brechó ali em Notting Hill. Fui ao escritório deixar meu CV e me deram um teste para completar com umas perguntas de Quizz de Pub, tipo: qual o nome do segundo álbum do Manic Street Preachers ou de quem é o disco metal machine music? De 30 perguntas, acho que acertei umas 18. Obviamente não iriam me utilizar como comprador de rock.
Dei sorte neste momento, pois no escritório da loja, no segundo andar, estavam discutindo sobre o uso das redes sociais para vender mais coisas e eu, como quem não queria nada, disse que poderia ajudar, afinal, tinha acabado de completar um curso sobre isso. Eles se mostraram animados e me chamaram para voltar no dia seguinte, para ver como a loja funcionava. Eu tinha arrumado um emprego em Londres.
- Jura que é assim? -
No dia seguinte, apareci cedo, como pedido. Lembrei-me do primeiro dia no meu primeiro emprego - fui (lá se vão meus 17 anos) com uma camisa do Botafogo para o trabalho. Eu era um balconista (era 95, seríamos campeões brasileiros este ano, a camisa era um motivo de orgulho). Meu patrão, gente finíssima, me pediu para ir em casa trocar de camisa. Troquei. No dia seguinte voltei para trabalhar de bermuda - era verão no Brasil. Tive que ir correndo para a casa do meu pai pegar uma calça dele e ir pro trabalho. Aprendi nos dois primeiros dias que se vestir para trabalhar com o público exige muito mais pensamento que a gente acha. Ainda assim, escolhi uma profissão que me fez NUNCA vestir um terno em minha vida - nem tenho um até hoje.
Volto para o presente - agora já passado (praticamente 3 anos atrás - e caramba, como os anos voam agora...) - estreei na loja e fui alocado no brechó masculino. Fiquei um dia por lá, vendo como as coisas funcionavam, dei algumas ideias de como não confundir as chaves das vitrines - colei durex nelas com números e foi isso. No dia seguinte pediram para eu voltar. E fui voltando até o final d semana quando percebi que ninguém tinha me "contratado" ainda nem tinham me dado a senha do cartão de ponto eletrônico no computador, para contar minhas horas trabalhadas. Ganhava 7 libras por hora e tentava trabalhar por volta de 10 horas por dia, para juntar alguma coisa que pudesse ajudar a pagar o aluguel absurdo de uma quitinete. Depois de uma semana, me relocaram para o brechó dos refugos - existia uma certa hierarquia nas lojas - discos, roupas femininas, roupas masculinas, livros e quadrinhos, refugo das roupas 1, refugo das roupas 2 e tralhas e quinquilharias.
Lá no refugo 2, a parte de cima da loja é cheia de tranqueiras e com algumas araras de roupas e a parte de baixo, o subsolo, é um emaranhado de restos de roupas baratas que ninguém quer comprar. E isso atrai um tipo muito específico de cliente, que quer comprar roupas baratas porque provavelmente não tem dinheiro para comprar roupas melhores e que acha que por isso pode descontar suas frustrações nos atendentes. Lá eu passava metade do tempo recolhendo sacos pretos de lixo cheios de roupas, colocando preço e tag de segurança nas peças. A outra metade do tempo, passava recolhendo peças de roupa que o pessoal provava e simplesmente jogava no chão. Limpava a loja quando chegava, e a todo momento precisava ficar de olho para ver se não tinha uma lata de Coca-Cola no chão ou um copo de milk-shake derrubado dentro dos provadores (sim, eu limpava isso tudo todo o tempo).
Como vocês podem imaginar, era um trabalho ingrato. Saia com o pessoal do trabalho às sextas - às vezes - para um pint no pub e as pessoas eram bem legais. Todas meio perdidas na vida, algumas vivendo nos quartos em cima das lojas - eram umas seis enfileiradas numa área nobríssima de Londres. O dono das lojas? Um ex-beatnik lesado de droga que capengava e tinha acessos de fúrias, demitindo funcionários e os recontratando horas depois. Ainda assim, uma boa pessoa.
Depois de quase um mês, perguntei se iriam me utilizar para outra coisa - o marketing digital para o qual me contrataram - e se a reunião com o dono da empresa para tratarmos disso (eu já tinha feito um projeto de comunicação e tinha tudo anotado) iria acontecer. Logo quando comecei, me chamaram para falar com ele e eu comecei a discutir alguns pontos, como o SEO da página da loja, com links quebrados e a falta de atualização das redes sociais. Ele fez uma cara de "não entendi" e falou que precisaríamos fazer essa reunião com alguém que entendesse do que eu estava falando presente. hahahaha
Isso nunca aconteceu. Um dia, no horário de fechamento da loja, um dos sub-gerentes me chamou para conversar e disse que eles tinham chegado à conclusão que aquilo não era para mim. Que eu tinha que procurar alguma coisa no marketing mesmo e que já não precisava ir no outro dia.
Isso nunca aconteceu. Um dia, no horário de fechamento da loja, um dos sub-gerentes me chamou para conversar e disse que eles tinham chegado à conclusão que aquilo não era para mim. Que eu tinha que procurar alguma coisa no marketing mesmo e que já não precisava ir no outro dia.
Por mim, tudo bem, disse. Na verdade, já estava um pouco cansado mesmo e não via futuro ali naquela bagunça empoeirada.
E essa foi minha primeira experiência profissional na Europa.
- Tô sem emprego, o dinheiro está acabando, preciso de ajuda -
segunda-feira, dezembro 26, 2016
Devo dizer que tenho um puta orgulho disso aqui. E que escrevo para mim.
Adoro me ler, depois de um tempo.
Mesmo sem revisão (foda-se), mesmo sem repensar, às vezes mesmo sem pensar.
Esse blog é meu streaming mental, é o que penso, em cada minuto marcado ali (dia 13 de dezembro, 20:48 - era assim que sentia, que escrevia, que pensava, que sofria).
A alma ausente é minha, e apesar de parecer dar as caras por aqui, tempos em tempos,
ainda não a encontrei.
Adoro me ler, depois de um tempo.
Mesmo sem revisão (foda-se), mesmo sem repensar, às vezes mesmo sem pensar.
Esse blog é meu streaming mental, é o que penso, em cada minuto marcado ali (dia 13 de dezembro, 20:48 - era assim que sentia, que escrevia, que pensava, que sofria).
A alma ausente é minha, e apesar de parecer dar as caras por aqui, tempos em tempos,
ainda não a encontrei.
Dia de textão - apesar de odiar o termo cheio de maus exemplos em tempos de intolerância ao diferente nas redes sociais.
Mas acontece que 2016 está acabando e esse foi um ano em que todos, sem exceção, tiveram mais motivos para reclamar do que para agradecer. Eu, deste lado de cá, reclamei também, mas poderia, e devo, agradecer mais.
Vamos aos fatos.
Virei 2015 para 16 em Gibraltar, um pedacinho de terra no sul da Espanha que faz parte do Reino Unido. O mesmo Reino Unido que, em junho, resolveu que precisava sair da União Europeia, deixando uma enorme incógnita quanto ao meu futuro por aqui.
Viemos para a Europa, primariamente, para morar em Londres (cidade mais cara do mundo - e sentimos isso na PELE). Se não em Londres, na Inglaterra. Ficamos uma ano lá (um pouco menos, uns 11 meses). Foram tempos difíceis e, além de ter que controlar o desbunde de estar na capital de tudo por um ano, tive a oportunidade de começar a arrumar uns bicos, empregos nada fáceis, mas que davam um dinheirinho ao fim do mês. No mês que mais ganhei, recebi quase mil libras. Fui, feliz, comprar um iPad novo para mim e para a Ju. O nosso anterior já era um trambolho e dava defeitos demais.
Bom, fiquei um ano enviando currículos por lá, e não rolou muita coisa na minha área. O dinheiro estava acabando e precisava, urgentemente, arrumar qualquer coisa que pudesse nos sustentar. MESMO. Era isso ou voltar para o Brasil. E então veio o chamado para cá. Gibraltar.
Não tínhamos nem a opção de discutir se viríamos ou não. Viemos e, veja, só, depois de muito tempo, consegui uma recolocação no mercado, agora europeu. Sei como isso é difícil e como devo ser grato por não estar mais nos bicos que pagam mixaria por hora trabalhada. Sei como é difícil se tornar um profissional aqui (e olha que vim pra cá com 38 anos) e deixar de ser a mão-de-obra imigrante barata. E consegui. Foi difícil, foi duro, foi sofrido (e ainda é, por N motivos), mas foi.
Enfim, virei o ano novo aqui. Tomei um porre e torci o pé. hahahaha
No trabalho, mostrei serviço. Na vida, abri as portas para receber amigos queridos (várias vezes durante o ano) em minha casa. Fui com eles a Gibraltar, rodamos muito pela Andalucía, Sevilla, Málaga, Marbella...
Tive meu pai em casa por 21 dias. Veio para passar meu aniversário aqui. Foi bom, foi ruim e foi como deveria ser. Deixou saudade, claro. Conhecemos uma amiga querida que passou voando por aqui e por motivos de saúde já voltou para o Brasil. Mas que nos deixou uma lição de vida, uma plantinha e sua bicicleta.
Por razões estranhas e vias tortas, fui promovido na empresa. Entrei na área de Marketing Digital, finalmente. Fiquei 3 meses. Por mais razões estranhas e vias tortas, fui relocado para outra área, ainda dentro do marketing, em agosto. Reiniciei minha carreira profissional 3 vezes, em menos de um ano. Motivos para alegria, confesso.
E aí, teve o Brexit. A libra despencou, despencou meu salário (que é sempre convertido de libra para euro) e as contas aumentaram. Tivemos que nos mudar para um apartamento menor e mais barato. E comprei um carro, já que locomoção é um problema por aqui. São contas que batem pesado e muitas vezes tiram o chão, dando lugar ao desespero e sofrimento. Reclamo, esperneio, tenho crises. É bom escrever, para passar por cima e ver que o mundo não acaba em uma conta atrasada. Enquanto tiver pernas, irei caminhar.
Mas 2016 também teve Eurocopa e Portugal foi campeão. Quando fui para o Brasil, na correria, em julho, estava guardando o passaporte quando um outro passageiro me falou, forçando o português inexistente, "Parabéns". Não entendi nada e virei para trás, perguntando o motivo. Ele apontou para o passaporte português e disse: "Pela Eurocopa". Agradeci, tomando o floreio como uma graça, mas não sentindo-me portador de tal título, ainda que, pela nacionalidade, seja.
Não me enxergo mais como português, brasileiro, carioca ou o que seja. Quando essas barreiras nacionais são derrubadas e convives com uma multitude de nacionalidades e personalidades, passas a dar valor ao que a pessoa é, em caráter. Trabalho com gente que nem sei de que país é, e isso realmente não faz a menor diferença.
Uma das coisas que mais me marcou em 2016 foi ter feito 40 anos. Não sem antes aparecer, de supetão, um pequeno "problema" de saúde relacionado à idade. Tive uma lesão na retina, com descolamento de alguma meleca dentro do meu cristalino. Passei a ver sombras no olho esquerdo, muitas sombras. As famosas moscas volantes. Situação comum em quem tem mais de 5 graus de miopia (tenho 5 1/2) e mais de 40 anos. Uma bosta. Ou seja, além de todos os questionamentos que já tenho com relação a idade, ao envelhecimento aparente do corpo, dos amigos e da barba branca, ainda terei que conviver com esta merda pelo resto da minha vida. Vida.
Tantas pessoas morreram em 2016. Tantos "famosos". Nossos ídolos vão nos deixando, um a um. Agradeço por ter uma família resistente. Uma tia-avó rumo aos 101 anos, meu avô indo pros 98 e minha avó para os 91. Penso se, como eu, eles ainda são as mesmas pessoas dos 15, 18, 20 anos...
O tempo passa, as responsabilidades são jogadas em seus ombros, queira ou não, e você se "torna" um adulto. Nunca serei, infelizmente.
Estou mais para idoso do que para adolescente e não me considero um adulto. Tenho carro, pago aluguel, trabalho, mas e daí?
Existirá um momento em que tudo fará mais sentido como adulto? Ou só levaremos essa vida questionando isso até a morte chegar? Ainda tenho atitudes infantis, mas sinto a urgência dos 40. Diferente dos 30, quando não via sentido e achava que não tinha nada na vida, hoje sei dar valor ao que tenho, e vejo a porta se fechando lá na frente. Preciso aproveitar tudo ao máximo antes que me torne um imprestável. O futuro assombra. Disso, me queixo.
Aos 40, tornei-me vegetariano, ou pescateriano (ainda como peixe, envergonhado, é verdade). Não consigo mais ser responsável pela morte de animais. Mesmo que não seja eu o assassino, era por minha causa também que eles eram (e ainda são) abatidos. Já não quero mais este karma para mim. Terei tempo para limpar minha vida e buscar o Darma de não comer mais carne animal?
Junto com a idade e o aperto financeiro, descobri que posso viver sem muito luxo. E o mais importante, sem comprar nada. Nada, não, que ainda vou a mercado. Mas itens materiais, não compro mais. Desde junho não compro um disco. Roupas, a Ju compra, mesmo que diga não ser necessário. Mas mesmo isso caiu para uma vez a cada 4 meses. Tenho coisas demais e tempo de menos pra consumi-los. Para que tê-los, em verdade?
Quero ter cada vez menos. Ser leve, juntar minha vida em uma mochila. Tentar entender-me internamente e não criar um ser externo com experiências materiais - ser = ter.
Aproximo-me de uma divindade, penso mais, respeito mais, agradeço mais. Talvez a religiosidade seja uma porta que jovens não conseguem abrir. Espero ter esta chave, em busca de paz. Prometo, em 2017, reclamar menos e agradecer mais.
O ano foi essa confusão de pensamentos e, agora, memórias. Não fiz jus ao que vivi nestas linhas. Nem era esta minha intenção. Talvez a vontade era apenas de escrever e tirar o banzo do fim de ano pesado e de dívidas. Se foi isso, consegui.
Que venha mais desafios, mais amores e sofrimentos, mais perdas e encontros, mais um pouco de tudo, que a gente ainda tá aguentando bem o tranco. Fiquemos com Deus, pois.
Feliz Ano Novo.
Mas acontece que 2016 está acabando e esse foi um ano em que todos, sem exceção, tiveram mais motivos para reclamar do que para agradecer. Eu, deste lado de cá, reclamei também, mas poderia, e devo, agradecer mais.
Vamos aos fatos.
Virei 2015 para 16 em Gibraltar, um pedacinho de terra no sul da Espanha que faz parte do Reino Unido. O mesmo Reino Unido que, em junho, resolveu que precisava sair da União Europeia, deixando uma enorme incógnita quanto ao meu futuro por aqui.
Viemos para a Europa, primariamente, para morar em Londres (cidade mais cara do mundo - e sentimos isso na PELE). Se não em Londres, na Inglaterra. Ficamos uma ano lá (um pouco menos, uns 11 meses). Foram tempos difíceis e, além de ter que controlar o desbunde de estar na capital de tudo por um ano, tive a oportunidade de começar a arrumar uns bicos, empregos nada fáceis, mas que davam um dinheirinho ao fim do mês. No mês que mais ganhei, recebi quase mil libras. Fui, feliz, comprar um iPad novo para mim e para a Ju. O nosso anterior já era um trambolho e dava defeitos demais.
Bom, fiquei um ano enviando currículos por lá, e não rolou muita coisa na minha área. O dinheiro estava acabando e precisava, urgentemente, arrumar qualquer coisa que pudesse nos sustentar. MESMO. Era isso ou voltar para o Brasil. E então veio o chamado para cá. Gibraltar.
Não tínhamos nem a opção de discutir se viríamos ou não. Viemos e, veja, só, depois de muito tempo, consegui uma recolocação no mercado, agora europeu. Sei como isso é difícil e como devo ser grato por não estar mais nos bicos que pagam mixaria por hora trabalhada. Sei como é difícil se tornar um profissional aqui (e olha que vim pra cá com 38 anos) e deixar de ser a mão-de-obra imigrante barata. E consegui. Foi difícil, foi duro, foi sofrido (e ainda é, por N motivos), mas foi.
Enfim, virei o ano novo aqui. Tomei um porre e torci o pé. hahahaha
No trabalho, mostrei serviço. Na vida, abri as portas para receber amigos queridos (várias vezes durante o ano) em minha casa. Fui com eles a Gibraltar, rodamos muito pela Andalucía, Sevilla, Málaga, Marbella...
Tive meu pai em casa por 21 dias. Veio para passar meu aniversário aqui. Foi bom, foi ruim e foi como deveria ser. Deixou saudade, claro. Conhecemos uma amiga querida que passou voando por aqui e por motivos de saúde já voltou para o Brasil. Mas que nos deixou uma lição de vida, uma plantinha e sua bicicleta.
Por razões estranhas e vias tortas, fui promovido na empresa. Entrei na área de Marketing Digital, finalmente. Fiquei 3 meses. Por mais razões estranhas e vias tortas, fui relocado para outra área, ainda dentro do marketing, em agosto. Reiniciei minha carreira profissional 3 vezes, em menos de um ano. Motivos para alegria, confesso.
E aí, teve o Brexit. A libra despencou, despencou meu salário (que é sempre convertido de libra para euro) e as contas aumentaram. Tivemos que nos mudar para um apartamento menor e mais barato. E comprei um carro, já que locomoção é um problema por aqui. São contas que batem pesado e muitas vezes tiram o chão, dando lugar ao desespero e sofrimento. Reclamo, esperneio, tenho crises. É bom escrever, para passar por cima e ver que o mundo não acaba em uma conta atrasada. Enquanto tiver pernas, irei caminhar.
Mas 2016 também teve Eurocopa e Portugal foi campeão. Quando fui para o Brasil, na correria, em julho, estava guardando o passaporte quando um outro passageiro me falou, forçando o português inexistente, "Parabéns". Não entendi nada e virei para trás, perguntando o motivo. Ele apontou para o passaporte português e disse: "Pela Eurocopa". Agradeci, tomando o floreio como uma graça, mas não sentindo-me portador de tal título, ainda que, pela nacionalidade, seja.
Não me enxergo mais como português, brasileiro, carioca ou o que seja. Quando essas barreiras nacionais são derrubadas e convives com uma multitude de nacionalidades e personalidades, passas a dar valor ao que a pessoa é, em caráter. Trabalho com gente que nem sei de que país é, e isso realmente não faz a menor diferença.
Uma das coisas que mais me marcou em 2016 foi ter feito 40 anos. Não sem antes aparecer, de supetão, um pequeno "problema" de saúde relacionado à idade. Tive uma lesão na retina, com descolamento de alguma meleca dentro do meu cristalino. Passei a ver sombras no olho esquerdo, muitas sombras. As famosas moscas volantes. Situação comum em quem tem mais de 5 graus de miopia (tenho 5 1/2) e mais de 40 anos. Uma bosta. Ou seja, além de todos os questionamentos que já tenho com relação a idade, ao envelhecimento aparente do corpo, dos amigos e da barba branca, ainda terei que conviver com esta merda pelo resto da minha vida. Vida.
Tantas pessoas morreram em 2016. Tantos "famosos". Nossos ídolos vão nos deixando, um a um. Agradeço por ter uma família resistente. Uma tia-avó rumo aos 101 anos, meu avô indo pros 98 e minha avó para os 91. Penso se, como eu, eles ainda são as mesmas pessoas dos 15, 18, 20 anos...
O tempo passa, as responsabilidades são jogadas em seus ombros, queira ou não, e você se "torna" um adulto. Nunca serei, infelizmente.
Estou mais para idoso do que para adolescente e não me considero um adulto. Tenho carro, pago aluguel, trabalho, mas e daí?
Existirá um momento em que tudo fará mais sentido como adulto? Ou só levaremos essa vida questionando isso até a morte chegar? Ainda tenho atitudes infantis, mas sinto a urgência dos 40. Diferente dos 30, quando não via sentido e achava que não tinha nada na vida, hoje sei dar valor ao que tenho, e vejo a porta se fechando lá na frente. Preciso aproveitar tudo ao máximo antes que me torne um imprestável. O futuro assombra. Disso, me queixo.
Aos 40, tornei-me vegetariano, ou pescateriano (ainda como peixe, envergonhado, é verdade). Não consigo mais ser responsável pela morte de animais. Mesmo que não seja eu o assassino, era por minha causa também que eles eram (e ainda são) abatidos. Já não quero mais este karma para mim. Terei tempo para limpar minha vida e buscar o Darma de não comer mais carne animal?
Junto com a idade e o aperto financeiro, descobri que posso viver sem muito luxo. E o mais importante, sem comprar nada. Nada, não, que ainda vou a mercado. Mas itens materiais, não compro mais. Desde junho não compro um disco. Roupas, a Ju compra, mesmo que diga não ser necessário. Mas mesmo isso caiu para uma vez a cada 4 meses. Tenho coisas demais e tempo de menos pra consumi-los. Para que tê-los, em verdade?
Quero ter cada vez menos. Ser leve, juntar minha vida em uma mochila. Tentar entender-me internamente e não criar um ser externo com experiências materiais - ser = ter.
Aproximo-me de uma divindade, penso mais, respeito mais, agradeço mais. Talvez a religiosidade seja uma porta que jovens não conseguem abrir. Espero ter esta chave, em busca de paz. Prometo, em 2017, reclamar menos e agradecer mais.
O ano foi essa confusão de pensamentos e, agora, memórias. Não fiz jus ao que vivi nestas linhas. Nem era esta minha intenção. Talvez a vontade era apenas de escrever e tirar o banzo do fim de ano pesado e de dívidas. Se foi isso, consegui.
Que venha mais desafios, mais amores e sofrimentos, mais perdas e encontros, mais um pouco de tudo, que a gente ainda tá aguentando bem o tranco. Fiquemos com Deus, pois.
Feliz Ano Novo.
sábado, dezembro 17, 2016
Demorei 40 anos para parar de comer carne.
Aprendo devagar, já viu.
****
Ainda não aprendi a beber.
Quer dizer, aprendi faz muito tempo.
O que não aprendi foi a parar de beber.
Principalmente quando o clima é bom, entre amigos e com diversão. Aí, a bebida desce sem rédeas. E, em pouco tempo, o combalido corpo de guerra entra em colapso.
Aprendo devagar, já viu.
****
Ainda não aprendi a beber.
Quer dizer, aprendi faz muito tempo.
O que não aprendi foi a parar de beber.
Principalmente quando o clima é bom, entre amigos e com diversão. Aí, a bebida desce sem rédeas. E, em pouco tempo, o combalido corpo de guerra entra em colapso.
quarta-feira, dezembro 14, 2016
quinta-feira, dezembro 08, 2016
Antes aqui:
Metallica – Hardwired... to Self-Destruct
Hoje em dia é difícil escrever sobre um lançamento. O que mais há é opinião por aí. Ou seja, resenhar é sempre uma batalha por evitar revisitar o que já foi lido e debatido e tentar trazer algo novo para a mesa. Muitas vezes, não é possível . Mas desta vez, admito, estou animado para encarar o desafio
Faz algumas semanas o Metallica, a maior banda de rock pesado do planeta, lançou seu décimo álbum de estúdio (só considero os álbuns autorais): Hardwired… To Self-Destruct. O disquinho foi celebrado como um retorno às origens, um sopro de renovação para a banda. Um paradoxo interessante, ter que voltar às origens para se renovar.
O ponto é que o Metallica se tornou relevante uma vez mais.
Com uma estratégia de divulgação absurdamente bem feita (não esqueçam, o Metallica é uma máquina bem azeitada de fazer dinheiro e marketing), o disco foi o centro das discussões dos círculos musicais durante pelo menos, uma semana. Uma eternidade neste mundinho efêmero de hoje. Alguns aplaudiram. Outros cornetaram. Mas todos falaram deles. Bom, escrevi até aqui e não falei do disco. E aí, o disco é bom?
Em minha humilde opinião, o disco é bom, sim. Não é um clássico, mas é bem feito. E para comparar, andei escutando os lançamentos anteriores deles (Death Magnetic – 2008 - e St. Anger – 2003). Não resisti e dei uma gargalhada ao ouvir os primeiros minutos do disco de 2003. Esqueçam-no! Hardwired é um disco do Metallica. Riffs, peso, melodia e até uns refrões. O grande defeito é que a edição deluxe traz um disco a mais, com versões de músicas do Rainbow retiradas do tributo ao DIO, do Iron Maiden, uma música lançada apenas em single (a melhor de todo o álbum – Lords of Summer) e umas gravações ao vivo bem dispensáveis.
Como já disse, não é um lançamento que irá mudar a vida de ninguém. Mas ainda assim, vamos bater os pezinhos, tocar air guitars, chacoalhar a cabeça e colocar uns milhões a mais na conta do Metallica.
Metallica – Hardwired... to Self-Destruct
Hoje em dia é difícil escrever sobre um lançamento. O que mais há é opinião por aí. Ou seja, resenhar é sempre uma batalha por evitar revisitar o que já foi lido e debatido e tentar trazer algo novo para a mesa. Muitas vezes, não é possível . Mas desta vez, admito, estou animado para encarar o desafio
Faz algumas semanas o Metallica, a maior banda de rock pesado do planeta, lançou seu décimo álbum de estúdio (só considero os álbuns autorais): Hardwired… To Self-Destruct. O disquinho foi celebrado como um retorno às origens, um sopro de renovação para a banda. Um paradoxo interessante, ter que voltar às origens para se renovar.
O ponto é que o Metallica se tornou relevante uma vez mais.
Com uma estratégia de divulgação absurdamente bem feita (não esqueçam, o Metallica é uma máquina bem azeitada de fazer dinheiro e marketing), o disco foi o centro das discussões dos círculos musicais durante pelo menos, uma semana. Uma eternidade neste mundinho efêmero de hoje. Alguns aplaudiram. Outros cornetaram. Mas todos falaram deles. Bom, escrevi até aqui e não falei do disco. E aí, o disco é bom?
Em minha humilde opinião, o disco é bom, sim. Não é um clássico, mas é bem feito. E para comparar, andei escutando os lançamentos anteriores deles (Death Magnetic – 2008 - e St. Anger – 2003). Não resisti e dei uma gargalhada ao ouvir os primeiros minutos do disco de 2003. Esqueçam-no! Hardwired é um disco do Metallica. Riffs, peso, melodia e até uns refrões. O grande defeito é que a edição deluxe traz um disco a mais, com versões de músicas do Rainbow retiradas do tributo ao DIO, do Iron Maiden, uma música lançada apenas em single (a melhor de todo o álbum – Lords of Summer) e umas gravações ao vivo bem dispensáveis.
Como já disse, não é um lançamento que irá mudar a vida de ninguém. Mas ainda assim, vamos bater os pezinhos, tocar air guitars, chacoalhar a cabeça e colocar uns milhões a mais na conta do Metallica.
sexta-feira, novembro 18, 2016
Antes aqui:
Oi, Tio!
Parei no
vermelho. Dei bobeira e a janela ficou aberta. Um enxame de microemprendedores
de sinal apóia os braços na porta do carro e, cada um ao mesmo tempo agora,
tenta me empurrar alguma buginganga que não preciso. Não preciso, mas não nego
que muitas delas me impressionam e adoraria ter um tempo maior do que um sinal
vermelho para discutir a utilidade de cada uma em minha vida. Mas o sinal abre
e dou adeus a todos eles, sem comprar nada, a não ser um saquinho de
irresistíveis balas de café.
Não vendo
balinhas de café, mas adoraria ter o tempo de um sinal fechado para vender meus
textinhos daqui para você. Entender o que esse público (meu público? tenho
público?) quer ler ou pretende absorver em um texto curto de uma coluninha. Um
sinal amarelo já bastava. Tudo o que eu quero é seu tempo, suas pupilas
dilatadas, seu sorriso no meio dessa carona linda. Carona aqui, não tem nada a
ver com automóvel, só com cara grande, uma forma carinhosa de falar, você sabe.
Acontece
que hoje em dia o bem de mais valioso, e - putz - não renovável, é o tempo. O meu, o seu, o do consumidor. Os
impulsos de compra são decididos em micro-momentos, nos poucos segundos em que
olho a tela do celular entre um email e outro. Os likes que solto por aí, o tempo
que passo em cada blog ou site de notícias, tudo isso é monetizável (odeio essa
palavra) em termos de internet. E, para que não passe mais tempo fora da
internet, doando todo o tempo livre para os outros, as grandes corporações
criam maneiras de acompanhar-nos em todo momento. Relógios com internet,
cozinha com internet, telefones com internet, roupas conectadas, carros que não
precisaremos mais dirigir e que nos darão mais tempo para, sim, ficarmos na
internet. Isso até o momento em que vamos estar 100% do tempo em realidade
virtual, doando 100% do nosso tempo para todos os outros, enquanto achamos que
nos divertimos, passando um tempo a sós, consigo mesmo. Isso sim é aproveitar a
vida.
Um sorriso
leve aparece no canto da boca de algum empreendedor bilionário do outro lado da
rede.
quarta-feira, novembro 02, 2016
Antes aqui:
Interruptor
Posso não
parecer, mas sou um profundo admirador do ser humano. Nos últimos anos, no
entanto, não há esperança na humanidade que sobreviva à realidade. Como disse
certa vez o pensador Amaral, ótimo cabeça-de-área do Palmeiras nos anos 90, a
esperança é a única que morre.
Lamento
dizer, querid@, mas não é só a esperança que morreu. Ontem mesmo uma menina que
foi atingida por uma explosão de bueiro faleceu. Ela estava saindo de uma
festa. Para morrer basta estar vivo, é verdade. E ainda tem a tuma da piada
pronta, a que ri de qualquer desgraça, dizendo que “Morreu? Antes ela do que
eu.”
Até quando,
no entanto? Ela veio antes, e antes dela teve o travesti que foi espancado até
a morte por ser… ele mesmo. Ou a menina que levou uma bala perdida olhando a
vista pela janela. Viver é perigoso. Mas o perigo chegou a níveis alarmantes no
Brasil. Na verdade, quem está vivo até hoje é que faz parte das estatísticas. Morrer
de causa natural (qual seria ela?) é uma improbabilidade. Haja colesterol,
atropelamento de ciclista e armas de fogo…
Como disse
acima, sou um profundo admirador da raça humana. Alcançamos algo que nenhuma
outra raça conseguiu. Se auto-extinguir. Em termos de fazer merda, não dá para
ninguém. A não ser, claro, que uma espaçonave pouse na Terra nas próximas
décadas e me faça engolir cada uma dessas palavras jogadas ao ventilador. Mas
aí, com um alienígena me olhando, engulo qualquer coisa.

