Acho que nunca contei isso aqui, mas fui diagnosticado com TDAH. Não sabe o que é isso? Nem eu sabia, para falar a verdade.
Era o meu superpoder: o de me concentrar sem parar em algo, de sentar e, de sopetão, escrever páginas e páginas (e nunca revisar).
Era começar trabalhos, projetos, filmes e contos e parar no meio. Era me jogar nos braços das pessoas e me dizer apaixonado a cada segundo — para, no segundo seguinte, estar apaixonado por outra coisa.
Era beijar quem quer que fosse, sem nunca pensar. Era falar pelos cotovelos, sem entender que interrompia aulas, conversas, desabafos...
E no meio de tudo isso, bebida e ansiedade: uma duplinha besta que sempre acompanhou meus passos.
Bom, tudo isso para falar que, depois de 50 anos, comecei a me medicar. Passei por todas as fases da descoberta do transtorno: a não aceitação, a dúvida de quem eu era realmente, o achar-se uma falha, depois uma mentira, até finalmente se entender enquanto você mesmo.
E com a medicação... bom, acho que perdi o foco (o super, pelo menos) para sentar e escrever. Ou talvez o remédio tenha me dado a força de sentar e escrever de novo. Mais foco, mas não o super.
Quem sabe não faço disso uma rotina? Quem sabe não volto a escrever textos maiores, mais pensados, planejados e que — vejam só — sejam revistos?
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